Texto 28 ago. Os Ônibus

Lotados os ônibus,
Saem da parada em penumbra,
Aos sacolejos, os ânimos.
A rua os deslumbra.

Em ronco um caminhão,
Buzina ao bacurau que vai e vem:
- “Hoje tem 
paralisação!”
- “Não tem!” - “Tem!” - “Não tem!”.

O circular ligeiro,
Motorista aguado,
Diz: - “Meu passageiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em passar nos buracos!
Que arte! É o mínimo
Aos seus sovacos.

O meu caminho vai além
Vou sem freio.
Faço paradas bem
Da rua, no meio.

Vai por cinqüenta minuto’ 
Que lhes deixo esperando:
Reduzi no engarrafamento
Do trajeto vou desviando.

Buzina a ‘frotaria’
Em críticas céticas:
Não há mais paralisia,
Mas há horas frenéticas…”

Buzina o bacurau:
- “Ontem eu parei!”- “Foi!”
- “Não foi!” - “Foi!” - “Não foi!”.

Buzina em um assomo
O integração-não-ligeiro:
- A grande arte é como
Sacudir o passageiro.

Ouvido de rodoviário.
Tudo quanto é grito,
Tudo quanto é horário,
Canta pneu aflito”.

Outro, no ônibus grita
(Um mal passageiro cabe),
Apertados pelas tripa’,
- “Sobe!” - “Não sobe!” - “Sobe!”.

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A avenida infinita
Vê-se a pessoa imensa;

Lá, dormindo no fundo,
Sem glória, sem fé,
No sono profundo
E espremido, é

Que reclamas tu,
Transportado no não frio,
Ônibus-cururu
Nessa rua quase rio…

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Adaptado por Iago. Original: Os Sapos - Manuel bandeira

Citação 3 jun.
É como se ninguém tivesse mais que fazer do que vigiar as idas e vindas dos vizinhos; e, de qualquer maneira que nos conduzamos, tornamo-nos o alvo de todas as bisbilhotices.
— 

Marta

- Fausto (Goethe)

Citação 31 mar.

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

— Cálice - Chico Buarque
Foto 6 mar.
Texto 17 fev. Medo

Tenho medo das minhas “previsões” para o futuro. “Previ” espionagem em altíssimo grau por parte dos governos, anos depois veio a bomba Snowden que confirmou. “Previ” a ‘primavera’ vindo para a América do Sul e sendo duramente reprimida pelas ‘democracias’ locais. “Previ” protestos perdendo rumo, protestos sendo empoderados por políticos para uso em campanhas políticas (‘no meu governo, os protestos foram pacíficos’) [essa parte ainda será confirmada]. Policiais infiltrados em protestos e partidos bancando protestos nem precisavam ser “previstos”. O governo reprimindo e colocando o povo contra o povo é outro ponto que não precisava ser “previsto”. “Previ” o povo fugindo para a zona rural e criando suas próprias forças armadas. “Previ” a pobreza tomando áreas geralmente associadas à classes mais abastadas. “Previ” a incapacidade do governo (qualquer que seja) de controlar seja o que fosse, no máximo desviaria algo, mas não o controlaria. “Previ” a tentativa de controle de forma autoritária (violência e leis desproporcionais). A bolha todos viram, nem preciso falar nada…

Temos um país ‘tridividido’ [bom dia, neologismo] entre governo, esquerda-caviar e direita-liberosa. Os protestos foram empoderados para que o governo fosse visto como uma vítima e para ser retirado do foco dos protestos. Hoje a ‘tridivisão’ é vista como uma ‘bidivisão’ e lutamos nós contra nós mesmos. E o futuro? Do futuro tenho medo por ver poucas saídas e ter uma visão pessimista que me faz acreditar que ocorrerá a pior das possibilidades.

Para o futuro temos poucas saídas e a mais provável é a entrada de um novo governo (também pseudo-democrático) de extrema direita que doará o país e dará o máximo de pão e circo em um último fôlego antes de ruir de vez. Só que esse não é o futuro que dá-me medo. Meu medo é surgimento de um líder carismático que faça as massas perceberem o inimigo comum, que unifique o povo contra o governo, que prometa reerguer o país, que use o povo para entrar no poder público prometendo a salvação e lá torne-se um ditador também de extrema direita.

Nada do que “previ” foi uma previsão per si. Só vi a história de Roma se repetindo de forma levemente distorcida e com seus eventos ocorrendo no ritmo dos dias atuais. Esse medo do futuro é ver que o país tem um povo desiludido, dividido e é um país fodido, por ele mesmo, dando espaço para o surgimento de um líder carismático, mas menos democrático que o governo atual (ainda digo que vivemos uma aristocracia e não democracia). Nunca quis tanto estar completamente errado.

Texto 28 jan. Porque o “X” não deveria ser usado para indefinir gênero e uma sugestão de solução.

Ultimamente podemos ver que as pessoas estão começando a usar o “X” indefinir o gênero, apoiando as pessoas que não são de nenhum dos dois gêneros da língua portuguesa. Por exemplo:

"Xs amigxs estão passeando".

A ideia de retirar o gênero da frase para torná-la neutra não é só aceitável, como é louvável. O problema está na forma em que foi feita. Aparentemente isso foi coisa de alguém que goste muito de matemática que colocou uma “variável” no lugar e deixou para que cada um “calcule” o resultado. Na hora de ler, o ‘X’ chama atenção para algo, mas atrapalha o fluxo da leitura e impossibilita que o texto seja pronunciado na língua portuguesa. Nossa língua não permite sílabas sem vogais. Nossa língua falada não abrange “gxs”, por exemplo.

Outras línguas, como o alemão, possuem um gênero extra chamado de “neutro”. Esse gênero poderia ser adicionado a língua portuguesa de modo que possamos falar sem ficar “xxxxxxiando” na tentativa de deixar claro que é um gênero não masculino nem feminino.

No português, a desinência de gênero é dada por uma vogal. Temos “O” para masculino e “A” para feminino. Temos, portanto, outras 3 vogais para o gênero neutro.

Considerando que o “U” possui um som bastante próximo ao do “O” (amigus, amigos…), o “U” pode ser desconsiderado para evitar confusões entre quem fala e quem escuta.

O “E” causaria problemas por já existir um advérbio de adição “e” e o verbo ‘ser’ quando na sua forma “é”.

O que sobra é a vogal “I” que também pode gerar confusões, nesse caso, quando a oração exigir um advérbio de adição e um artigo definido. Por exemplo: “Vamos passear eu e is amiguis”.

O “U” possui som bastante próximo ao do “O” e pode gerar confusões. O “E” possui dois problemas e um deles é com o verbo “ser” que é bastante utilizado. O “I” possui um problema cacofônico.

A meu ver, o “I” seria a vogal ideal para expressar o gênero neutro na língua portuguesa assumindo o lugar do “X” atualmente utilizado mesmo sendo impronunciável.

Foto 24 jan.
Foto 24 jan.
Foto 9 jan. 532 notas

(Fonte: hazelsparkle)

via Darklands.
Foto 9 jan. 42 notas
via Darklands.

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